Entrevista com o secretário de saúde Jackson Machado: Febre Amarela e Sífilis em BH


Combate à Febre Amarela e Sífilis é prioridade em Belo Horizonte

O ano de 2017 não tem sido fácil para os gestores da saúde pública em Minas Gerais. Desde janeiro, a Febre Amarela voltou a preocupar os órgãos de saúde, com mais de 150 mortes registradas em Minas Gerais. Na capital, a primeira confirmação de morte aconteceu no último dia 17 de maio. Ao todo 427 casos já foram confirmados no estado, um dado alarmante.

Preocupação também com o surto de sífilis. A doença sexualmente transmissível cresce entre a população brasileira e, em Minas Gerais, mais de 8 mil casos foram registrados no último ano, segundo dados da Secretaria de Estado de Saúde (SES-MG).

Para o dermatologista e secretário de saúde de Belo Horizonte, Jackson Machado Pinto, estes são temas que devem ser levados a sério pelos órgão competentes e pela população.

O senhor assumiu a Secretaria de Saúde de Belo Horizonte em meio a um surto de Febre Amarela em Minas Gerais. Ainda há motivos para a população de Belo Horizonte se preocupar?

Diante do início da epidemia por febre amarela, diversas medidas foram tomadas com o intuito de proteger a população de doença. Houve uma intensificação da vacinação, definição de fluxos no atendimento de indivíduos com suspeita da doença e monitoramento das epizootias, realizando a ação de controle diante da morte de primatas não humanos (PNH), nos mesmos moldes de quando identificado caso humano suspeito da doença.

O grande desafio de evitar a urbanização da febre amarela foi alcançado nesse momento. Entretanto, a manutenção de boas coberturas vacinais para a febre amarela em nossa população, a vigilância de epizootias e a continuidade do controle, inclusive com o importante apoio da população em evitar criadouros do mosquito transmissor, são medidas fundamentais para afastarmos esse risco.

Quais foram as principais mudanças no calendário vacinal da Febre Amarela na capital mineira para enfrentar esse momento de surto? Por que essas mudanças?

A principal mudança foi a recomendação de aplicação de uma dose da vacina para as crianças de seis a oito meses e 29 dias, no período da detecção de epizootias em matas de Belo Horizonte, não se aplicando mais nesse momento.

Essa dose não deve ser considerada no esquema vacinal da criança, que receberá a dose preconizada pelo Programa Nacional de Imunização do Ministério da Saúde (PNI-MS) aos nove meses de idade.

As demais condutas eram as mesmas recomendadas pelo PNI-MS para residentes de Belo Horizonte, desde a implantação da vacina na capital em 1999.

Em abril, o PNI-MS passou a recomendar apenas uma dose da vacina, atendendo as orientações da Organização Mundial de Saúde (OMS).

Quais os sintomas da Febre Amarela e o que o cidadão deve fazer quando desconfiar da doença?

Indivíduo com quadro febril agudo (até sete dias), de início súbito, acompanhado de icterícia e/ou manifestações hemorrágicas, residente em (ou procedente de) área de risco para febre amarela ou de locais com ocorrência de epizootia confirmada em primatas não humanos ou isolamento de vírus em mosquitos vetores, nos últimos 15 dias, não vacinado contra febre amarela ou com estado vacinal ignorado.

Outra questão enfrentada atualmente pela Saúde Pública brasileira é a epidemia de sífilis, admitida pelo Ministério da Saúde em 2016. Por que uma doença antiga de tratamento relativamente fácil continua um desafio para os gestores de saúde?

O controle da sífilis está relacionado à educação. As pessoas perderam o medo das Doenças Sexualmente Transmissíveis, perderam o medo da AIDS, depois que ficaram sabendo que a doença tem tratamento, mas não tem cura. Com isso deixaram usar o preservativo. É uma questão de comportamento. Não é recomendável ter relações sem conhecer a pessoa, sem usar preservativo. A sífilis pode ser transmitida pelo ato sexual em todas as suas variações, inclusive pelo beijo.

A sífilis tem notificação compulsória? Como os médicos que não estão inseridos ou não no SUS devem proceder?

A sífilis não é de notificação compulsória. Os médicos devem, sobretudo, cuidar do tratamento das pessoas. Suspeitar da doença, pedir os exames, fechar o diagnóstico e encaminhar o tratamento.

Sobre a sífilis congênita, o Ministério da Saúde já assinou pactos de erradicação da doença, mas ainda sem sucesso. Essa forma da doença é a que traz mais preocupação para a Saúde Pública?

Todas as formas de doença trazem preocupação. A sífilis durante a gravidez gera uma preocupação maior porque é uma doença que vai atingir duas pessoas e pode provocar o abortamento, trazer deformidades graves. No entanto, se as mulheres tiverem acesso ao pré-natal é uma doença possível de tratamento. O que precisamos é aumentar a oferta de pré-natal.

Na primeira Reunião Científica da SBD-MG, o dermatologista cearense Heitor de Sá Gonçalves falou que a sífilis era o passado da dermatologia retornando e que os médicos tinham que voltar desconfiar da doença quando os sintomas permitissem. Como dermatologista experiente, qual o conselho que o senhor dá aos que não tiveram muito contato com a doença?

Devemos estudar e pensar “sifilicamente”. A sífilis é conhecida pelos dermatologistas como “a grande simuladora”, pois pode simular outras doenças. Portanto é necessário sempre desconfiar que uma lesão de pele possa ser sífilis. Sempre desconfiar da possibilidade de se estar diante de um quadro de sífilis.